Gênesis 6:1-7 – Bíblia de Jerusalém
1 Quando os homens começaram a multiplicar-se sobre a terra e lhes nasceram filhas,
2 os filhos de Deus, vendo que as filhas dos homens eram belas, tomaram para si mulheres, entre todas as que preferiram.
3 Então Javé disse: “Meu espírito não permanecerá para sempre no homem, pois ele é carne. Sua vida será de cento e vinte anos.”
4 Ora, naquele tempo – e também mais tarde – havia gigantes (Nefilins) sobre a terra, quando os filhos de Deus se uniram às filhas dos homens e elas lhes deram filhos. Esses são os heróis da Antiguidade, homens de renome.
5 Javé viu que a maldade do homem se multiplicava sobre a terra, e que todo o seu pensamento era sempre e unicamente voltado para o mal.
6 Arrependeu-se Javé de ter feito o homem na terra, e isso lhe pesou no coração.
7 E Javé disse: “Eliminarei da face da terra o homem que criei – tanto o homem como os animais, os répteis e até as aves do céu –, pois me arrependo de tê-los feito.”
Texto original hebraico – Gênesis 6:1-7
1 וַיְהִי כִּי־הֵחֵל הָאָדָם לָרֹב עַל־פְּנֵי הָאֲדָמָה וּבָנוֹת יֻלְּדוּ לָהֶם׃
2 וַיִּרְאוּ בְנֵי־הָאֱלֹהִים אֶת־בְּנוֹת הָאָדָם כִּי טֹבֹת הֵנָּה וַיִּקְחוּ לָהֶם נָשִׁים מִכֹּל אֲשֶׁר בָּחָרוּ׃
3 וַיֹּאמֶר יְהוָה לֹא־יָדוֹן רוּחִי בָאָדָם לְעֹלָם בְּשַׁגַּם הוּא בָשָׂר וְהָיוּ יָמָיו מֵאָה וְעֶשְׂרִים שָׁנָה׃
4 הַנְּפִלִים הָיוּ בָאָרֶץ בַּיָּמִים הָהֵם וְגַם אַחֲרֵי־כֵן אֲשֶׁר יָבֹאוּ בְנֵי־הָאֱלֹהִים אֶל־בְּנוֹת הָאָדָם וְיָלְדוּ לָהֶם הֵמָּה הַגִּבֹּרִים אֲשֶׁר מֵעוֹלָם אַנְשֵׁי הַשֵּׁם׃
5 וַיַּרְא יְהוָה כִּי רַבָּה רָעַת הָאָדָם בָּאָרֶץ וְכָל־יֵצֶר מַחְשְׁבֹת לִבּוֹ רַק רַע כָּל־הַיּוֹם׃
6 וַיִּנָּחֶם יְהוָה כִּי עָשָׂה אֶת־הָאָדָם בָּאָרֶץ וַיִּתְעַצֵּב אֶל־לִבּוֹ׃
7 וַיֹּאמֶר יְהוָה אֶמְחֶה אֶת־הָאָדָם אֲשֶׁר־בָּרָאתִי מֵעַל פְּנֵי הָאֲדָמָה מֵאָדָם עַד־בְּהֵמָה עַד־רֶמֶשׂ וְעַד־עוֹף הַשָּׁמַיִם כִּי נִחַמְתִּי כִּי עֲשִׂיתִם׃
Tradição oral e interpretações antigas sobre os “Filhos de Deus”, Nefilins e os Heróis da Antiguidade
A tradição oral judaica, somada a fontes apócrifas e midrashicas, traz interpretações variadas e ricas sobre esse texto misterioso:
1. Quem são os “Filhos de Deus”?
Existem três interpretações principais:
Anjos decaídos (tradição mais antiga e apocalíptica):
- Presente em textos como o Livro de Enoque (apócrifo), onde os “filhos de Deus” são os Vigilantes, um grupo de anjos que se rebelaram ao cobiçar as filhas dos homens.
- Eles ensinam aos humanos artes proibidas (metalurgia, feitiçaria, cosméticos) e geram uma descendência de gigantes (os Nefilins).
- Essa visão é reforçada em Judas 1:6-7 e 2 Pedro 2:4 no Novo Testamento, que parecem aludir a esse mito.
Linhagem de Sete (visão rabínica clássica):
- Os “filhos de Deus” seriam os descendentes justos de Sete, e as “filhas dos homens” seriam descendentes de Caim.
- Essa visão busca evitar implicações mitológicas, especialmente após o exílio babilônico.
Reis ou nobres da antiguidade (interpretação sociológica):
- Em contextos ugaríticos e mesopotâmicos, os reis eram chamados de “filhos dos deuses”.
- Pode ser uma crítica a reis que abusavam do poder e praticavam a poligamia.
2. Quem são os Nefilins?
Palavra hebraica נְפִילִים (Nefilim) tem raízes incertas. Pode derivar de nafal (“cair”), sendo “os caídos”, ou pode indicar gigantes.
No Livro de Enoque, os Nefilins são seres híbridos: filhos dos anjos com mulheres humanas, de grande estatura e força.
Foram associados a comportamentos violentos e à corrupção da Terra antes do dilúvio.
3. Quem eram os “Heróis da Antiguidade, homens de renome”?
Na tradição judaica e em paralelos mesopotâmicos (como Gilgamesh), eram semi-deuses ou heróis de feitos extraordinários.
Pode ser uma lembrança mitificada de reis, guerreiros ou líderes tribais lendários.
Também podem representar a elite corrompida do tempo anterior ao dilúvio, cuja glória contrastava com a depravação moral.
4. Politeísmo e o contexto religioso da época
Na época da redação de Gênesis (séculos X–VI a.C.), Israel ainda competia com culturas politeístas vizinhas (Canaã, Egito, Mesopotâmia).
O uso do termo “filhos de Deus” (bᵉnê ʾĕlōhîm) é semelhante à linguagem ugarítica para descrever o conselho divino (divine council) dos deuses.
É provável que o relato tenha raízes em tradições politeístas antigas, reinterpretadas à luz do monoteísmo israelita emergente.
Referências úteis para aprofundamento
- Livro de Enoque (1 Enoque, especialmente capítulos 6–16)
- Michael S. Heiser – The Unseen Realm: Recovering the Supernatural Worldview of the Bible (interpretação dos “filhos de Deus” como seres celestiais)
- James Charlesworth – The Old Testament Pseudepigrapha
- John J. Collins – Apocalyptic Imagination (contexto dos Vigilantes e tradição apocalíptica)
- Samuel Noah Kramer – História começa na Suméria (paralelos com mitos mesopotâmicos)
Tabela Resumida
| Tema | Tradição Apocalíptica (Livro de Enoque) | Tradição Rabínica (Linhagem de Sete) | Visão Sociológica/Historicista | Referências Externas |
|---|---|---|---|---|
| Filhos de Deus | Anjos caídos (Vigilantes) | Descendentes de Sete (justos) | Nobres/reis da antiguidade | Ugarit: “Filhos dos deuses” |
| Filhas dos homens | Mulheres humanas | Descendentes de Caim (ímpios) | Mulheres comuns, povo | Mitologia cananeia e babilônica |
| Nefilins | Gigantes híbridos, violentos | Homens fortes e corrompidos | Guerreiros lendários | Gilgamesh, mitos sumérios |
| Heróis da Antiguidade | Seres semidivinos com força e fama | Antigos líderes da linhagem justa | Lendários reis-guerreiros | Mitologia mesopotâmica |
| Motivação do Dilúvio | Corrupção cósmica e violação divina | Mistura entre linhagens opostas | Violência e abuso dos poderosos | Alinhado a mitos de destruição |
| Objetivo do texto | Denunciar a transgressão dos celestiais | Preservar o monoteísmo | Crítica social ao poder corrupto | Reinterpretação cultural |






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