História

Como os evangelhos foram escritos?

Escrita dos Evangelhos

Uma questão que muitos podem ainda não ter se dado conta é como os evangelhos foram escritos. Quem foram os autores reais? Quais os contextos? Foram escritos muito tempo após a morte de Jesus de Nazaré? Como eles eram lidos pelos devotos cristãos? Vamos estudar um pouco destas interessantes questões?

Sabe-se que os Evangelhos foram escritos entre os anos 60 e 100 d.C., em um contexto cultural dominado pela tradição oral e pela escrita em materiais como papiro e pergaminho. A produção desses textos envolvia práticas específicas da época:

Materiais Usados:

Como os evangelhos foram escritos - Papiro

    • Papiro: Feito de fibras da planta de papiro, era o material mais comum para escritos no mundo greco-romano. Ele era relativamente acessível, mas menos durável.
    • Pergaminho: Feito de pele de animal (geralmente cabra ou ovelha), era mais caro, mas mais resistente e reutilizável.

Exemplo de Pergaminho

  • Processo de Escrita:

    • A escrita era realizada por escribas, que usavam instrumentos como canas afiadas (cálamos) e tinta feita de carvão ou outros pigmentos naturais.
    • O texto era registrado em rolos (mais comuns) ou em códices (livros rudimentares, cuja popularidade cresceria no cristianismo primitivo).
  • Língua:

    • Os Evangelhos foram escritos em grego koiné, a língua franca do Mediterrâneo oriental na época. Alguns especialistas sugerem que o Evangelho de Mateus possa ter sido originalmente escrito em hebraico ou aramaico, mas essa ideia permanece debatida.
  • Tradição Oral e Influências:

    • Antes de serem registrados por escrito, os ensinamentos de Jesus circularam oralmente. A escrita dos Evangelhos reflete tanto essa tradição oral quanto a necessidade de preservar os ensinamentos de forma duradoura, especialmente com o crescimento do cristianismo além das fronteiras da Judeia.

Leitura e consumo dos textos escritos

A prática de leitura e consumo de textos escritos no século I d.C. era moldada por fatores culturais e tecnológicos:

  1. Leitura em Voz Alta:

    • A maioria das pessoas era analfabeta; estima-se que apenas cerca de 10% da população do Império Romano sabia ler e escrever. Assim, os textos eram frequentemente lidos em voz alta por um leitor treinado, chamado lector, para grupos reunidos.
    • Nas comunidades cristãs primitivas, os Evangelhos e as cartas apostólicas eram lidos em reuniões litúrgicas ou em casas de fiéis, como parte da adoração.
  2. Formato dos Textos:

    • Inicialmente, os Evangelhos foram escritos em rolos de papiro. No entanto, os cristãos adotaram rapidamente o formato do códice, que era mais prático para consulta e transporte, permitindo reunir vários textos em um único volume.
    • O códice também era mais adequado para o cristianismo, que dependia de missionários e pregadores para disseminar sua mensagem.
  3. Interpretação e Tradição:

    • A leitura dos textos geralmente vinha acompanhada de interpretação. Os líderes das comunidades cristãs explicavam os textos à luz da tradição oral e das Escrituras Hebraicas (o Antigo Testamento).

Referências Históricas à Tradição Escrita e Leitura

1. Tradição Judaica e Cristã Primitiva

  • O uso de textos escritos estava profundamente enraizado na cultura judaica. As Escrituras Hebraicas já eram copiadas meticulosamente por escribas, e essa prática influenciou os cristãos.
  • Jesus frequentava sinagogas, onde as Escrituras eram lidas publicamente, como mencionado em Lucas 4:16-20. Essa prática de leitura comunitária continuou nas comunidades cristãs.

2. Autores Cristãos Primitivos

  • Irineu de Lyon e outros Pais da Igreja mencionam o uso dos Evangelhos e sua leitura nas igrejas, reforçando a ideia de que eles eram amplamente reconhecidos como autoridade canônica.
  • Justino Mártir, no século II, descreve os encontros cristãos, onde as “memórias dos apóstolos” (os Evangelhos) eram lidas e explicadas.

3. Arqueologia e Manuscritos

  • Manuscritos antigos, como o Papiro Rylands P52 (cerca de 125 d.C.), mostram como os textos dos Evangelhos começaram a circular em papiro e códices. Esse fragmento do Evangelho de João indica que os textos foram copiados e distribuídos rapidamente.
Papiro Rylands P52
Papiro Rylands P52

Consumo Prático dos Documentos

  1. Cópia e Disseminação:

    • Os textos eram copiados manualmente por escribas ou amanuenses (assistentes de escritores). Isso era demorado e caro, mas essencial para a propagação da mensagem cristã.
    • A precisão das cópias era uma preocupação, mas variações textuais surgiram devido a erros ou interpretações dos copistas.
  2. Uso Litúrgico:

    • Os Evangelhos eram lidos nas assembleias cristãs como parte do culto. Essa prática ajudava a fixar os textos na memória coletiva da comunidade.
  3. Impacto Social:

    • A escrita dos Evangelhos permitiu que o cristianismo transcendesse sua dependência da tradição oral, garantindo a preservação dos ensinamentos em um mundo onde a comunicação era lenta e o risco de perseguição era constante.

Conclusão

A escrita e o consumo dos Evangelhos no século I refletem uma transição entre a tradição oral e a dependência de registros escritos para preservar e disseminar a mensagem cristã. Produzidos em papiro ou pergaminho e difundidos principalmente por leitura pública, esses textos desempenharam um papel central na formação das comunidades cristãs primitivas e na consolidação do cristianismo como religião universal. A combinação de inovação tecnológica, como o uso do códice, e práticas litúrgicas garantiu a sobrevivência e a influência dos Evangelhos ao longo dos séculos.

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